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Folha de S. Paulo - 2014

São Paulo - Brasil

 

Suicídio como ato político

Embora tenham passado 60 anos, nunca li sobre o suicídio de Getúlio algo que se compare em qualidade interpretativa ao artigo de um suíço-francês escrito pouco depois da tragédia

12/05/2014

 

Rubens Ricupero

 

Embora tenham passado 60 anos, nunca li sobre o suicídio de Getúlio algo que se compare em qualidade interpretativa ao artigo de um suíço-francês escrito pouco depois da tragédia. Ao ver agora o filme que traz de volta aqueles dias, busquei o artigo e confirmei minha lembrança: ninguém entre nós escreveu igual ou melhor.

Albert Béguin, suíço de La Chaux-de-Fonds, terra de Le Corbusier e Blaise Cendrars, era diretor de "Esprit", revista da esquerda intelectual católica fundada por Emmanuel Mounier. Conhecia o Brasil por ter sido o testamentário literário de Georges Bernanos, o romancista católico que viveu sete anos em Barbacena. Chegou a dar cursos em Belo Horizonte sobre existencialismo.

No número de outubro de 1954 da revista, Béguin inseriu comentário intitulado "Do suicídio como ato político". Começava por descartar o clichê da imprensa francesa de que se tratasse de "uma revolução sul-americana, um fato pitoresco e anacrônico". Descrevia Lacerda como um "McCarthy brasileiro [...] puritano de inteligência viva e estreita, [que] jamais fez a menor crítica das estruturas nas quais se desenvolveram os escândalos que denuncia".

Sem ilusões sobre o outro lado, valorizava Vargas como político "cínico, mas inteligente, quase o único no Brasil, além dos comunistas, com consciência dos problemas modernos e da ascensão das massas".

Refutava a versão do suicídio como gesto de desespero, de aniquilamento moral ao descobrir-se mergulhado num "mar de lama". Via, ao contrário, certa "grandeza assustadora, um último ato político, o único pelo qual poderia desconcertar os inimigos e arruinar-lhes o triunfo".

Realçava "a altura de tom e o acento de vontade inflexível" da carta-testamento. O vocabulário e algumas paráfrases lhe pareciam estranhamente evangélicas, mas admirava o sangue-frio de uma consciência que, na hora da morte, se encontra totalmente voltada para o desejo de "sobreviver na história não como uma lembrança, mas como um fermento ativo".

Pouco importava saber se Getúlio acreditava ser o defensor dos humildes ou se fingiu até o fim. O que conta é que o gesto funcionou. E descrevia como em poucas horas, ao assumir "morte romana, pagã, com vistas a uma ação a prosseguir e uma vingança a exercer", o Pai sacudiu a passividade das massas, garantindo-se vitória que ninguém mais lhe haveria de tirar.

Béguin chega a dizer que, ao convocar as massas a participar ativamente da existência nacional, o suicídio tinha feito o Brasil entrar no século 20. Acertou ao prever que as eleições daquele ano mostrariam que a carta conseguira levantar as massas.

O problema, indagava, é quem seria capaz de educá-las, não levando a sério para isso os trabalhistas ou os comunistas. Quanto aos membros do governo do "presidente Café", ("que nome para o primeiro magistrado do Brasil!", exclama), terão surpresas ao esperar restaurar os bons tempos de outrora com o apoio de um "Exército que, não precisando preparar a guerra, se dedica à especulação política".

Mais de meio século depois, o que se pode de essencial acrescentar a essa análise?


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