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Folha de S. Paulo - 2014

São Paulo - Brasil

 

As divisões do papa

"Afinal, quantas divisões tem o papa?"

17/03/2014

 

Rubens Ricupero

 

"Afinal, quantas divisões tem o papa?".

O comentário de Stálin vem à mente ao comparar o balanço do primeiro aniversário do papa Francisco com as ameaçadoras concentrações de tropas russas nas fronteiras da Ucrânia.

De um lado, o encanto de todos com um líder que sabe comandar e reformar a igreja, sem para isso sacrificar a humildade, o bom humor, a modéstia e simplicidade na forma de viver, o amor aos pobres, a ternura pelos doentes e infelizes.

Uma escolha que certamente tornou o mundo um pouco melhor do que era antes.

Do outro lado, a brutal expressão do poder e da violência e não só da parte de Vladimir Putin, mas dos americanos e ocidentais que desencadearam um imprudente jogo de provocações, sem medir as consequências em termos de agravamento do medo e da insegurança de um mundo já precário.

Doze meses bastaram para mostrar a diferença que pode fazer um homem. Apenas armado de algumas ideias e de energia moral e espiritual, Francisco reinventou uma instituição velha de 2.000 anos.

Não perdeu tempo e mudou o papado a partir do momento em que surgiu no balcão e pediu ao povo para abençoá-lo antes de dar-lhe a bênção!

Desde então, o papa não se afastou um milímetro na correspondência total entre o que diz e o que faz, vivendo vida pobre, frugal, sem ostentação, enriquecida com o humor popular de um velho avô cheio de sabedoria.

Sua capacidade de renovar a esperança contrasta com a decepção causada pelos principais líderes mundiais na gestão iníqua da crise financeira provocada pela cobiça dos bancos, no fracasso em lidar com o desafio político da Síria ou da Ucrânia a não ser com mais violência e confronto.

Um dos segredos de Francisco é a coerência entre ideias e vida.

Nada concorreu tanto para a desilusão geral com Obama do que o contraste de seus inspiradores discursos sobre a liberdade e a dignidade com a prática maciça da espionagem violadora da privacidade das pessoas e a persistente incompetência de fechar a prisão de Guantánamo.

E não se alegue que exercer o poder moral não exige coragem e decisão.

Quando os Estados Unidos e seus aliados estavam a ponto de repetir contra a Síria a imensa tragédia da invasão do Iraque, o papa moveu céus e terra, apelou a Putin, aos líderes do G20, convocou um jejum e jornada de orações.

Ajudou a evitar ataques que só agravariam o sofrimento dos inocentes ao demonstrar que não existia apoio popular para nova guerra.

Provou que liderança moral se constrói com determinação e posições claras.

Para isso, não se necessitam divisões armadas, orçamentos bilionários ou marqueteiros especializados em mentir e empulhar o público.

Não há nenhum mistério ou fórmula mágica para conquistar quase de um dia ao outro a confiança e o respeito do povo.

É suficiente ter como guia o infalível conselho do evangelho de Jesus Cristo: quem tem poder deve colocá-lo a serviço dos outros, não se servir do poder para si mesmo.

Quantos dos líderes políticos atuais passariam nesse teste?


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