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Folha de S. Paulo - 2014

São Paulo - Brasil

 

Vidas descartadas

O que domina este verão do nosso desconcerto não são as praias: é a imagem da abjeta degradação dos presídios, da serpente de malocas de crack a se arrastar nas calçadas, da inquietante vacuidade das correrias nos shoppings.

20/01/2014

 

Rubens Ricupero

 

O que domina este verão do nosso desconcerto não são as praias: é a imagem da abjeta degradação dos presídios, da serpente de malocas de crack a se arrastar nas calçadas, da inquietante vacuidade das correrias nos shoppings.

Paisagens humanas afastadas no espaço e unidas por traço comum: vidas jogadas fora, vazias de esperança e de sentido.

O soberbo trabalho de jornalismo da Folha, sobretudo o "DNA do rolê", de Ana Krepp, é referência incontornável para quem deseja entender o fenômeno. E para desmistificar interpretações interesseiras e forçadas sobre imaginários objetivos políticos e contestatórios.

Outro equívoco ingênuo consiste em fazer crer que tudo não passa de falta de lugares de lazer. Basta ler as entrevistas que a jornalista fez com os personagens para ver que não se trata absolutamente disso. Esses jovens sempre frequentaram os mesmos shoppings. Vão lá agora em grupos para encontrar os "ídolos", meninas e garotos de perfis "famosinhos" nas redes sociais, para se fotografar com eles, dar-lhes presentes de marca.

Nenhum deles está interessado em instalações desportivas ou culturais. Não se pode substituir o shopping simplesmente porque ele representa o templo do consumo, o lugar da realização do desejo de consumir, de ver e ser visto. Em outros tempos ou países, esse lugar era a praça pública, como nas cidades italianas ainda hoje. Nos Estados Unidos e no Brasil, não só por razões de segurança, os shoppings, o "mall", se tornaram a antiga ágora, o coração da cidade.

Seria mais fácil se a culpa fosse dos governos. Nesse caso, bastaria construir parques, salas de concerto. O problema consiste em que a culpa, se é que a palavra é mesmo essa, pertence à sociedade, à cultura, à civilização. Não há nada de novo nessa constatação.

Para não ir mais longe, o "Homem Unidimensional", de Marcuse, afirmava já em 1964 que o consumismo, a ditadura da mercadoria gerada pelo capitalismo pós-industrial havia privado o homem do senso crítico, reduzindo-o à exclusiva dimensão de consumidor de mercadorias desnecessárias. Três anos depois, Guy Debord acrescentava que a civilização da mercadoria gerava a sociedade do espetáculo.

Esses autores influíram nos jovens de maio de 68, que de fato contestaram o sistema, buscando não "mudar de vida", mas "mudar a vida". A procura de estilos alternativos de vida infelizmente deu em nada. Pior, levou ao beco sem saída das drogas, às comunas marginais, e por ironia acabou sendo confiscada pelo consumismo como mais um estilo a vender: o da contestação!

A morte do socialismo fez o resto. Um mundo desencantado pelo fim da religião, de um lado, pelo desaparecimento da ideologia, do outro, virou isso que está aí: o triunfo desabusado e insolente do consumismo, dos refinados consumidores de "cultura" aos toscos e inexperientes membros das novas classes médias das periferias.

O que será melhor: os que vivem "vida de calado desespero" e buscam saída no crack e no crime ou os seres humanos ocos, vazios de sentido e habitados apenas pela mercadoria?


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